That big old smile is all you wore
O tempo afastou eles dois. O tempo
e a maldita distância. Os anos quase fizeram ele esquecer o sorriso dela, o
coração não. No fundo ainda restava alguma coisa, embora ele não soubesse
porque ou o quanto. Mas o resto era o que martirizava seus pensamentos na dor,
era o que doía quando caía a chuva. Era por esse resto que ele ainda tinha
esperança. Quanto tempo fazia que não tinham se visto mais? Um ano? Dois? Três
goles de saudade? Não trocavam mais emails, nem tocavam mais as mãos, muito
menos as almas. Não sabiam os pormenores da rotina do outro, nem com quem
haviam se deitado, nem tido os prazeres terrenos, ou chorado as dores
profundas. Não tinham conhecimento de qual teria sido o ombro que o outro usou
pra chorar ou se apoiar, muito menos se choravam com frequência. A verdade é
que eles não sabiam mais nada porque era cômodo imaginar e a realidade poderia
cortar em mil pedacinhos os dois. Uma faca afiada entrando e saindo do
estômago, uma pulsação na cabeça esquentando os olhos. Era difícil demais ouvir
a realidade. Desde que ele a deixara percorreu todas as camas que poderia em
menos de um mês. Experimentou todos os copos e corpos vazios em uma imensa busca ao
grande nada. Oscilou entre uma personalidade fria e analítica para outra de ‘depressivo
por pura opção’. Cada cigarro que fumava era como se juntasse as cinzas
enterrando todas as lembranças dela. Os gestos, gostos, gozos, curvas, palavras,
cartas. Ela estaria, mais cedo ou mais tarde, a sete palmos das suas
recordações. Até que um dia, como esse de chuva, exatamente como o que faz
hoje, numa rua comum, num café qualquer, em frente a uma praça trivial, com
pessoas aleatórias e escolhas idem, ele escolheu parar e ler algo. Entrou no ambiente apertado, esquentou um pouco as mãos, pediu um café e esperou observando a
decoração antiga. Acho que teria pensado porque ainda não tinha entrado ali, tão bonito e familiar. Olhou seu reflexo na escuridão que a xícara
continha, o vapor lentamente entrava pelas suas narinas – era bom estar vivo,
se sentir vivo. Acolheu a porcelana em suas mãos, e num hábito corriqueiro lançou seu olhar para a inércia, sem pretensão alguma. Seus olhos atravessaram a vitrine daquele lugar que gostara a primeira
vista. Viu uma moça magra, tranquila, um anel no dedo – talvez já
tivesse visto aquele anel anteriormente, um cachecol bonito, uma mão perto da sua, um rapaz segurando gentilmente seu braço fino, um cabelo
preso, um sorriso bonito. Um sorriso feliz. Quantas vezes ele tinha recebido
aquele sorriso? Naquele dia, exatamente naquela hora, ele notou que de nada
adiantara aquelas camas, aquelas cinzas, aquele plano de vida de ter intensamente
o futuro nas mãos se o seu passado estava inevitavelmente ali, à paisana no seu
caminho, com outros motivos para se sentir completa. E ela, que era, se perguntou
por uns segundos, com os olhos que as decepções tinham lhe dado, por que a vida tinha tomado esse caminho, mas sem
resposta aparente, ou argumento convincente, deixou aquela rua e aquela vitrine
de café – para sempre, para nunca mais voltar.
And now she is
there on someone else's arms
Beatriz






