domingo, 27 de maio de 2012

Numa esquina, ou numa fossa



That big old smile is all you wore



O tempo afastou eles dois. O tempo e a maldita distância. Os anos quase fizeram ele esquecer o sorriso dela, o coração não. No fundo ainda restava alguma coisa, embora ele não soubesse porque ou o quanto. Mas o resto era o que martirizava seus pensamentos na dor, era o que doía quando caía a chuva. Era por esse resto que ele ainda tinha esperança. Quanto tempo fazia que não tinham se visto mais? Um ano? Dois? Três goles de saudade? Não trocavam mais emails, nem tocavam mais as mãos, muito menos as almas. Não sabiam os pormenores da rotina do outro, nem com quem haviam se deitado, nem tido os prazeres terrenos, ou chorado as dores profundas. Não tinham conhecimento de qual teria sido o ombro que o outro usou pra chorar ou se apoiar, muito menos se choravam com frequência. A verdade é que eles não sabiam mais nada porque era cômodo imaginar e a realidade poderia cortar em mil pedacinhos os dois. Uma faca afiada entrando e saindo do estômago, uma pulsação na cabeça esquentando os olhos. Era difícil demais ouvir a realidade. Desde que ele a deixara percorreu todas as camas que poderia em menos de um mês. Experimentou todos os copos e corpos vazios em uma imensa busca ao grande nada. Oscilou entre uma personalidade fria e analítica para outra de ‘depressivo por pura opção’. Cada cigarro que fumava era como se juntasse as cinzas enterrando todas as lembranças dela. Os gestos, gostos, gozos, curvas, palavras, cartas. Ela estaria, mais cedo ou mais tarde, a sete palmos das suas recordações. Até que um dia, como esse de chuva, exatamente como o que faz hoje, numa rua comum, num café qualquer, em frente a uma praça trivial, com pessoas aleatórias e escolhas idem, ele escolheu parar e ler algo. Entrou no ambiente apertado, esquentou um pouco as mãos, pediu um café e esperou observando a decoração antiga. Acho que teria pensado porque ainda não tinha entrado ali, tão bonito e familiar. Olhou seu reflexo na escuridão que a xícara continha, o vapor lentamente entrava pelas suas narinas – era bom estar vivo, se sentir vivo. Acolheu a porcelana em suas mãos, e num hábito corriqueiro lançou seu olhar para a inércia, sem pretensão alguma. Seus olhos atravessaram a vitrine daquele lugar que gostara a primeira vista. Viu uma moça magra, tranquila, um anel no dedo – talvez já tivesse visto aquele anel anteriormente, um cachecol bonito, uma mão perto da sua, um rapaz segurando gentilmente seu braço fino, um cabelo preso, um sorriso bonito. Um sorriso feliz. Quantas vezes ele tinha recebido aquele sorriso? Naquele dia, exatamente naquela hora, ele notou que de nada adiantara aquelas camas, aquelas cinzas, aquele plano de vida de ter intensamente o futuro nas mãos se o seu passado estava inevitavelmente ali, à paisana no seu caminho, com outros motivos para se sentir completa. E ela, que era, se perguntou por uns segundos, com os olhos que as decepções tinham lhe dado, por que a vida tinha tomado esse caminho, mas sem resposta aparente, ou argumento convincente, deixou aquela rua e aquela vitrine de café – para sempre, para nunca mais voltar.

And now she is there on someone else's arms


Beatriz

terça-feira, 22 de maio de 2012

Le fabuleux fin


Uma hora ele chega. Com entrada triunfal, tapete vermelho, rosas em punho, adeus de miss. O fim chega para a bondade dos amantes, para o aconchego das histórias, denunciando que ali jaz um corpo antes tão amado, e uma alma tão finda. O gran finale dispensa plateia a não ser seu próprio ínfimo. Eles são melhores amigos. Eles, o seu ínfimo e o fim, travaram muitas batalhas sangrentas nas noites de chuva, no meio de uma música, na lembrança amarga. A princípio um tinha medo do outro. O fim de chegar e maltratar quem já sofria, chutar no chão quem estava caído e o ínfimo... Ele era covarde, amedrontado de se ver sendo dilacerado pelo túmulo que iria ser sepultado. O ínfimo queria mais, do mesmo, mesmo ruim, mas o resto. Quantas tentativas ridículas a gente não faz para tentar o fim? Não adianta matar o amor com baygon vencido, nem passar na máquina de triturar papel, nem fazer charme e se fazer de forte. Uma hora, querendo ou não, os créditos finais de contos de fadas terminam com tudo que sobrou, seja bom, ruim, saudoso, nostálgico, insano, vadio. Um fim tão trágico que nem a genialidade de Almodóvar pôde imaginar. Um fim tão fim quanto o carnaval de Marcelo Camelo. Um fim suicida. Em letras garrafais. Com exclamações. Sem pontos. Puro e sem gelo. O fim que mata como doença terminal. O fim do Wando e Cazuza. O fim dos mortais que amordaça o infinito. O fim que liberta quem ainda tinha um pouco de esperança no náufrago da vida e é companheiro, caridoso, amigo. A esperança é a última que morre? Infelizmente. Pois que fique bem morta. Os fins são melhores. O fim é o gosto de gim, um livro de Bukowski, as notas de um banjo velho, é um velho. É a sabedoria desse velho. É esse velho desdentado rindo da vida. É a vida. E que a vida seja de finais, de romances terminando e outros começando, de sonhos indo ao bueiro e outros nascendo no leito de um rio como um fio d’água- tão puro, de passos imaturos a passadas largas e fortes. Que o fim venha esvaziar a prateleira com os livros antigos e fazer a mudança, jogando o que é velho no quintal, deixando-o mofar na chuva, fazendo-nos nascer de novo. O fim é bonito para quem o encontra. Para os que não, é um cego querendo ver a felicidade, batendo na porta do surdo que procurava ouvir alguém dizer que o ama. O fim é mal educado, e não pede licença para chegar. É antes de mais nada, tudo. É a saudade a beira mar lendo um livro no fim da tarde. O fim não acaba, nunca.


Beatriz

sábado, 5 de maio de 2012

Exatamente como deveria ser

ouvir



Eu deveria estar feliz?

A pergunta não saiu da minha mente quando acordei no outro dia. Há muito eu ostentei essa veste com orgulho de quem tinha perdido os pedaços de si. Era doloroso, mas eu fazia meu trabalho com esforço, como quem aceita ganhar o papel que não queria ter, mas representa fielmente diante do público. Teoricamente era tudo simples. A gente sempre acredita nisso não é? Teoria, simplicidade. Mas até elas estavam falhas, a situação era mais séria do que eu poderia imaginar por todos esses anos. Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces. Eu não acreditava que ele deixaria de amá-los, mas foi o que eu aceitei como verdade depois de todas as suas palavras ríspidas. Eu mudei de vida, como você bem viu. Mudei de cidade, de cabelo, mudei meu tom de voz, meus amigos e mudaria, com muito gosto, de nome também. Não suporto mais esse fardo tão grande que carrego com essas poucas letras, essa obrigação de fazer os outros felizes. Eu só queria ser feliz também, oras. Feliz sozinha, sem precisar de um ou outro pra sentir esse sentimento porque o outro também sente. Mas parecia que me privaram desse deleite terreno. E também não sou santa, desculpe. Prefiro ser infeliz, ponto final. Já ele, ele aí com toda essa boa intenção para fazer o que bem entende ficou se queixando pelos cantos se portando com ar de vítima. Se tem algo que eu sinto um desprezo instantâneo é ver alguém fingindo sofrimento para ser amado mais um pouquinho. Não se compra carinho, nem com ameaça, chantagem emocional, pacto com o diabo. Talvez por isso que a minha única resposta tenha sido essa cara de desprezo. Sabia que, no fundo, ele estava guardando as sobras da felicidade para o natal, deplorável. Até que finalmente aconteceu o que eu menos esperava. Desculpe, não gosto de mentir, eu esperava. Esperava como quem espera o fim da tarde chegar para ver o céu mudando as cores e o sol baixando devagar. Como quem espera às 4 da tarde, os presentes do dia de aniversário, essas coisas. Mas eu esperava de um jeito utópico. Como quem diz: no meu mundo ideal seria assim, e pra minha surpresa foi. Não pensei que no final da história eu seria a que acabou com o final feliz, finalmente. Mesmo ele estando jogado aos cães com um pé na depressão e outro na nostalgia, vale lembrar. Não que eu tenha ficado satisfeita por isso, ou repetindo “eu te avisei”, algo do tipo. Só fiquei aliviada por não precisar de ninguém pra sentir minha dor quando quiser e sorrir minha felicidade quando bem entender, sabe como é? Desculpe, fui grosseira, você não sabe. Mas quando souber vai entender o que eu estou falando. Eu não preciso de muito pra ser feliz. Tenho repetido essa frase docemente, beijando suas sílabas lentamente enquanto movo meus lábios para pronunciá-la. É uma sensação muito boa para ser desperdiçada sendo dita rápida e sem emoção. Noite passada eu comecei a escrever isso tudo num guardanapo e arranquei os sorrisos do cara ao lado do garçom quando me viu escrevendo praticamente um diário adolescente. Não seria melhor andar com um caderno da próxima vez, um deles – o cara ou o garçom - brincou. Eu ri. Aquilo riso baixinho de quem descobriu estar por cima da situação. Aquela risada que é contida para não alarmar o mundo inteiro que você está bem. Coisa de gente feliz de verdade, que não precisa gritar para todo mundo o quão feliz é para não atrair olhares maldosos de inveja. No fundo eu sinto pena dele. De verdade. Queria outra vida também para ele, talvez sem cabelos, amigos, roupas e nomes novos (principalmente nomes) como eu fiz. Mas entendo que dessa vida a gente não entende muita coisa, mas sente que ela nos leva pelos caminhos mais tortos para essa sensação de riso baixinho. Na próxima vez, quem sabe, eu chegue perto do ouvido dele e diga que não vou mais rir baixinho por enquanto para que ele possa chorar sem culpa. É que, já se sabe, eu não tenho costumado trocar minha felicidade pela daqueles que me fizeram nem que seja um pouquinho infeliz, mas às vezes, é quase uma questão de superioridade. Eu tiro meu sorriso do caminho para então você desfilar a sua dor.

Pensando melhor depois de tudo, eu merecia mesmo estar feliz... E estou. 

Beatriz


segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sob o sol, um pouco mais


Porque era cedo demais e nunca tarde. Era recém no inicio da não-morte dos dois.
(Depois de agosto, Caio Fernando)



Mais se ao menos eu lembrasse da cor. Seria azul? Ele sempre usava aquele azul acinzentado, ou um claro com calças beges, cáquis, neutras e pálidas que passam discretas na multidão. Ele nunca passava discreto na multidão mesmo que quisesse não causar alarde. Talvez fosse amarelo, ou verde. Naquele primeiro dia ele sorrira dizendo que eu estava tal como o sol do começo da manhã. Pensando agora, seria isso um elogio? Passei o protetor, tingi um pouco a boca, de leve, os brincos, pequenos, quase não apareciam, pérolas. Era para ser exatamente assim. A não ser pela minha expressão refletida no espelho. Os anos costumam levar algo da gente e a sensação – a única que resta - é esse vazio no espelho. Suspirei. O estômago embrulhava fácil, nada mais conveniente do que um reencontro tão fifteen – borboletas na barriga combinam bem com adolescentes apaixonados. Mas não comigo.  Eu não era mais nada do que ele vira anos atrás, pelo contrário, era outra por dentro, ao avesso. Comecei a pensar que a praia fosse mesmo a melhor escolha. Em restaurantes não se pausam as conversas. Até enquanto se come os ruídos são desconcertantes, os silêncios doem, a falta de palavras denuncia, grita, entorpece. Em casa não teríamos o que fazer. Talvez eu pusesse um som, depois de tentar decifrar o que ele gostaria de ouvir. Jimi Hendrix seria quase como dizer que bom que você está aqui, senti tanto sua falta. Mas desde que me mudei só o que restou foram os CDs dele. Seria minha morte súbita e dilacerada. Também ele viria que eu ainda tinha o cinzeiro que ele esqueceu e depois nunca veio buscar. Minha coragem de não me desfazer de nada que nos pertencia era uma desconhecida para mim. Patética, poética, estúpida. Praia então. Podemos ouvir a sonoridade do mar sem nos preocuparmos em falar algo. Nós que nunca fomos de nos preocupar em dizer algo no momento certo porque fluir é tão mais natural. Amávamos o natural, sorrir, silenciar, falar pelos olhos, formar palavras para quê? Um desperdício, um erro, um exagero. Mesmo tudo favorecendo aquele reencontro eu não me encontrava. O telefone tocou, insistente, e eu sem forças para atender fiquei observando o número calling. Quanto tempo fazia que eu não via aquela cena? Qual foi a última vez que aquilo aconteceu? Eu dei tanta importância assim naquele tempo como fazia dessa vez? Amargamente, com certeza não. Quase perto de chegar à caixa postal, atendi a ligação em sôfrego dizendo que já iria. A luz estava baixa, mas não tanto para cinco da tarde. O céu começava a se tingir de tons alaranjados, róseos, violetas. Sua mão na marcha do carro suava, não ousou chegar perto da minha, tão perto da dele. Tentamos umas três ou quatro formas diferentes de começar um diálogo. Todas sem sucesso. Tocávamos apenas nossas superfícies com medo de adentrar esse poço conhecido e antigo. Ele comentou sobre a loja nova, os amigos, a família, mas não falou sobre os brincos, apesar de ter observados duas vezes rapidamente enquanto olhava o retrovisor lateral. Não comentou do amarelo quando eu abri a porta e o sol iluminou a sacada. Não comentou nada ao não se conter em por meu cabelo para trás da orelha, tão típico e automático gesto. Jurei não dizer nada daquilo que tinha ensaiado tanto tempo para mim mesma, na fila do banco, debaixo do chuveiro, no intervalo do trabalho, todos os minutos do dia. Comecei perguntando como estava sua mãe e quando dei por mim já me escutava dizer que ainda bem que o seu perfume era o mesmo, eu não o reconheceria sem ele. Puro ímpeto. Não combino muito com planos, meus impulsos sempre são mais rápidos do que qualquer restrição mental de não faça/diga isso de novo. Meu bom senso deve me odiar e eu nem dou ouvidos. Melhor assim. Em poucos minutos o sol se despedia com seus últimos raios. Ele repetia estar fadado à vida medíocre, cansado das futilidades alheias, da parcialidade dos extremos. Entre uma frustração e outra repetiu que estava rouco. Rouco para ter intensidade o suficiente. E eu, que sempre advertia ainda se morre da falta de vida olhei para os seus olhos e beijei suas pálpebras. Como era bom tocar o seu rosto mais uma vez. Sua maçã, seu cabelo. O mar beijou a areia. Nos encontramos e nos despedimos, mais uma vez. Mas se eu ao menos lembrasse do sentimento. Afeto? Sim, nós sempre tínhamos um ao outro, mesmo que não tivéssemos mais a gente. 


Quantas vidas a gente precisa perder pra descobrir que só se ganha quando se ama de verdade?

Beatriz.



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Para uma âncora ou dente-de-leão


http://flic.kr/p/bxctts 


Soprei a poeira devagar. O sol que invadia o quarto pela fresta da janela iluminava os grãos de areia, dourava-os como o pólen de um flor. O som começou a tocar seus primeiros acordes. EdithPiaf me perguntava pra quê serve o amor. Engoli um gole d’água, dois, três, molhei as cordas vocais. Só saiu um silêncio. Vasculhei minha mente, nada. Dei de ombros para suas dúvidas, estralei algumas vértebras, umas falanges, e pus meus dedos a bailar na máquina de escrever, nenhuma palavra. O céu azul beijava o mar lá fora, minha alma querendo voar para bem longe, mas meu corpo me prendendo, aqui, como se eu fosse uma âncora que nunca deixava nada partir. Eu quero deixar partir. Eu não preciso segurar nada como um peso morto para ter uma história para contar. O problema são meus preceitos. Não sei mentir pra mim, nem me enganar, nem me iludir, nem isso, nem aquilo. Sinto uma ponta de inveja de quem se apaixona todos os dias por alguém diferente, pelo menino da balada, pelo garoto da universidade, pelo amigo do primo da amiga. Se tenho um sentimento, eu o crio, o rego, vejo-o crescer, coloco-o num pote, converso com ele, dou nome a ele, torno-o meu filho. Não sei chegar no outro dia e dar adeus esvaziando o pote na pia e vendo-o escorrer pelo ralo, não sou assim. Disse que amei? Disse. Então que passe o tempo necessário para que eu ame de novo, e esqueça das tardes quentes, das frases que ficam rangendo no meu ouvido, dos sonoros “você me faz feliz”. Que os dias passem para que esse sentimento olhe para mim com um sorriso íntimo, como daqueles velhos conhecidos, denunciando “pode me deixar ir agora, está tudo bem”, para, a partir desse dia, eu me sentir como uma folha em branco. Não sou melhor nem pior por isso, as pessoas que não o fazem também não. Isso depende de cada um, vem do ínfimo, mas se depender de mim, eu só me prendo a outra alma quando a minha bem entende. Mesmo que seja conveniente, ou para me satisfazer carnal ou moralmente, mesmo que seja por uns dias ou umas noites, eu só me encaixo naquilo que me encaixa no mundo. Só consigo amar aquele que me faz me amar toda antes de tudo. Só me sinto completa quando não é preciso nenhuma palavra, nenhum olhar, nenhum pensamento que o outro te completa a frase, a expressão, a explicação inteira. Enquanto não for assim, que a vida me tome em seus braços porque meu coração me toma por dentro, me tira a razão das escolhas sensatas, me faz uma libertina fajuta do que realmente importa. Talvez seja para isso, Edith, que sirva o amor. Para nos mostrar que no fundo, no final, na raiz das coisas que achamos que conhecemos, eis a nossa plenitude de vida: essa sensação de ser de alguém até nos nossos gestos e atos. Há um tempo eu vejo tudo ao meu redor em preto e branco, cenas mudas, tudo igual. Depois que nos acostumamos ao colorido, voltar ao preto e branco é sempre muito difícil. Mas também, digo de peito aberto que não há nada melhor do que arrancar o peso da âncora que nos prende, ver colorido, se sentir leve, amar o horizonte, voar junto, amar e ser feliz, mesmo que demore, mesmo que seja sem esperança, ou até que dure a vida inteira. Mas sim, ser capaz de sentir isso sempre vale muito a pena.



Foi-se o tempo de "eu te amo". Eu quero é romantismo nas palavras, todas elas.

Beatriz

quarta-feira, 28 de março de 2012

As horas por dentro


Disseram-me que eu era boa com as palavras. Não acho. 
Posso ser com os sentimentos, sim. Mas as palavras? 
Elas que são boas para mim. 
Elas que desafogam o meu peito.



Noite em claro, assim como a anterior e a antes dessa. Não consegui dominar meu consciente um minuto. Meu corpo queria descansar e se render, meu cérebro não, nunca! Foram vários goles de café enquanto o sol se levantava e eu estava lá a lhe esperar. Já vi tanta gente fechando a porta e indo embora da minha vida que pareceu fazer sentido vigiar o sol para ele não ir embora. Ele nunca foi até hoje, mas quem sabe, não é? Quem sabe? O café era meu companheiro. Meus olhos já reclamavam da minha insistência em mantê-los firmes, captando cada instante dos meus pensamentos. Fome também não há. Nem ela veio me visitar hoje. Não me fez tanta diferença, não tanto quanto as dores, que teimam em ficar do meu lado. Não gosto, mas isso também não faz muita diferença para elas. Disseram que eu tenho ansiedade. Ouviu a piada? An-si-e-da-de. Falei devagar para você poder debochar um pouco da minha cara e exclamar que eu estou no abismo, porque sim, estou, e ele é lindo! Mas, sendo bem sincera, minhas mãos trêmulas denunciavam meu nervosismo medonho. Tenho medo, elas dizem. Tenho medo não por ter ficado na zona de conforto como todo mundo, mas por ter me jogado e voado sabendo que nenhuma rede de proteção me espera lá embaixo e que, se ninguém me segurar, estarei estatelada no asfalto com sangue, com choro, sem um pingo de esperança. Tenho medo porque saí de casa quando minha maior vontade era abraçar minha mãe e dizer-lhe que não queria crescer, porque o mundo é feio e as pessoas gostam de te deixar cair de propósito. Medo porque tive que me reinventar todos os dias quando eu só queria ser a mesma garota do sorriso ingênuo que fazia molduras para os quadros que pintava como dizia Jack Johnson nos meus treze anos – também sinto falta dessa menina. MEDO, com todas as letras alertando e enfatizando o sentimento porque cada dia que passa eu tenho mais coragem de ir até o fim, expandir os meus limites e cair sem rede nem nada, já que agora, depois de tantas quedas, o chão me parece macio. O estômago reclama, a lágrima escorre – puro sal, a cabeça dói – não quer mais raciocinar – igualmente cansada. Talvez eu esteja doente – gastrite, me diagnosticam. Talvez seja a ansiedade, me aconselham como terapeutas. Mas talvez mesmo, seja minha alma sentindo que meu sonho está chegando mais e mais ao meu alcance e me dando uma chance nova de sofrer mais um pouquinho antes de provar essa felicidade. Prefiro acreditar nessa última ideia. Mas quem sabe? Quem sabe? 


Beatriz

terça-feira, 20 de março de 2012

O tropeço na pedra certa


“Anything could happen, right here tonight”


Eu não sei falar pouco, não sei manter as mãos paradas enquanto tento explicar algo, eu nunca consigo me explicar. Eu não sei amarrar os cabelos e deixá-los presos por mais de cinco segundos nem andar na rua sem ficar distraída em meio à multidão. Mas aí vai o que eu sei: aquilo que aconteceu ontem, naquela noite que você não atendeu aquele telefonema, naquele dia que você decidiu não ir à praia porque acordou mais tarde, naquela vez que você esqueceu o casaco e voltou para buscar... Bem, todas essas vezes o seu destino mudou incontáveis vezes. Talvez você tenha deixado de morrer num acidente de carro, pego uma gripe, ou simplesmente, você tenha perdido a oportunidade incrível de encontrar alguém incrível. Vi um dia, pelas páginas amarelas de algum livro, algo como “somos livres de fazer nossas escolhas mas prisioneiros das suas consequências”. Eu também não sei isso, lidar com as consequências, nunca. Escolho muito, tanto, tudo e o que acontece depois se acumula no armário como roupa mal dobrada. Às vezes repito se foi isso mesmo que houve nessa minha história tão irônica. Esqueci a luz acesa e voltei para apagar, então o amor da minha vida passou pela calçada alguns segundos antes de passar por mim que ia comprar o pão na padaria? A vida tem sim um jeito engraçado de acontecer, mas sim, ela sempre acontece e não perdoa. Do jeito que a gente não quer, da forma como a gente não espera, desajeitada, torta, irritante, impaciente. Fiquei olhando por tanto tempo meu reflexo em uma dose no bar perto de casa que perdi a noção da hora. Meus dedos ficaram circundando a boca do copo. Meu passado tinha virado filme na cabeça, as cenas corriam, bailavam, tilintavam como cinema mudo. Era uma piada infame demais ser tão feliz num instante para ver tudo desabar feito castelo de cartas no outro. Num suspiro só. A única coisa que me restou, e que sempre resta, é dar-me mais oportunidades, mais esperanças, mais coragem, mais e mais, de um poço profundo que nem sei de onde crio. Porque no fundo eu creio feito uma idiota que quem sabe eu vou estar no momento certo dessa vez no lugar certo. Vai ver que eu não esqueci nada e esteja me martirizando nessa tequila e nessas lágrimas enquanto o melhor ainda está ali esperando para bater na minha porta. Enquanto isso, eu não sei, como todas as vezes que não sei dessas coisas de gente grande, se rio ou se choro da reviravolta que sofrem meus dias cada dia novo. Mas sei que é inevitável querer saber, pois quanto mais nós temos certeza de onde estamos pisando, vem algo, algum, alguém e nos diz o quanto estávamos errados por todo esse tempo e nos dá uma chance de, finalmente, acertarmos em cheio.


Beatriz
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